Hoje quando acordei, eu decidi...
Não vou sofrer mais, não!
Reflexos do amor – Marjorie Estiano
...
E quando olhei no espelho, eu vi meu rosto e já não reconheci.
Temporal – Pitty
...
Acordei sentindo as coisas diferentes. Por um momento não tive coragem de sair da cama. Levantei o tronco, olhei para os lados e caí como um corpo desfalecido no colchão novamente. Não era preguiça, ou sono, ou qualquer coisa que me deixasse triste. Era uma mudança que me vinha com a noite.
Parece estranho falar de mudanças da noite pro dia, mas realmente sinto que algo mudou por aqui. Não só em mim, de modo mental. Mas estranhamente não me vi como uma menininha ao acordar. Refletia no espelho a imagem de uma mulher; o corpo de uma mulher. Me veio um sorriso. Uma vaga lembrança. E, então, subitamente, me veio uma melancolia. É muito estranho quando notamos mudanças em nós mesmos sem que alguém o faça antes.
Notei que meu reflexo parecia tentar falar comigo no espelho. Não mais a mesma mão em lados opostos. Não mais o mesmo corpo refletido. O mesmo sorriso e olhar. Mas uma meiguice estranha que me consumiu momentos de desespero e admiração. Como poderia eu ser aquele rosto feliz? Como poderia ser aquela mulher, tão menina quanto as mocinhas que desfilavam pelas ruas?
Uma estranha sensação de alívio me invadiu. Meus olhos pareciam mostrar coisas que só a memória guardaria. Gargalhei como louca diante de mim mesmo. Corri até a janela do quarto... pude ver o sol mais radiante e cheio de vida. Eu sabia que precisava parar de pensar em todas as coisas que já havia vivido. Resolvi me concentrar nas lembranças. E esfriar o corpo. Um banho talvez resolvesse minha situação de quem lamenta o fim de algo tão lindo.
Talvez ter tomado um banho não tenha sido boa ideia. Em partes. Me ver limpa foi ótimo. A pele mais resfriada, o cabelo escorrendo pelas costas. Mas ainda faltava algo. Faltava, na verdade, alguém. Resolvi não buscar. Não ligar. Não gritar.
Voltei para o quarto e deitei imaginando que tudo poderia ser um sonho. Mas ao perceber que não, resolvi viver para reviver as coisas que guardei na mente.
Estranhamente ainda não entendi a sensação de mudança. Não entendi até onde consegui guardar os medos e me desprender das meias-verdades que me isolavam como numa bolha, fazendo minha vida caminhar como bem entendiam que deveria caminhar.
Não sei até que ponto conseguirei manter guardado algo em mim que não tenha sido tocado ainda. Um pensamento, um trejeito, um medo. Algo que me faça ser eu mesmo, sem mudanças. Mas se os medos se foram... o que agora me resta?
Autor: Cecília Rodrigues
Co-autor: Fá Machado
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