Há um certo encantamento nas palavras. Há toda uma beleza, todo um sussurro ao pé do ouvido, que faz com que as palavras sejam verdadeiras atrizes, prontas para representar tudo o que lhes é passado como sentimento.
E nós, platéia balbuciante, somos dominados, levados e, na verdade, imploramos para sermos enganados. Marx estava errado, pois não a religião, mas sim a palavra, é o ópio do povo.
Escrevemos o que sentimos, adornamos sentimentos antes brutos ou encenamos com o único intuito de emocionar aqueles que nos creditam fé e que esperam de nós o sentimento que eles não possuem em suas próprias vidas?
Assim como quase tudo nessa vida a resposta é extremamente relativa. Há os que sentem e os que adornam, mas esses são simples, previsíveis e menos interessantes; os atores é que fazem da sua alma um verdadeiro palco.
Ao encenarmos através de nossas palavras satisfazemos o desejo inerente ao ser humano de acreditar que a realidade é muito maior e melhor do que parece. Pequenas paixões transformam-se em estigmas que serão carregados em nossas mentes pelo resto da vida, uma amizade se transforma em algo eterno e imaculado e até mesmo os maus sentimentos ganham uma roupagem nobre e sedutora. Projetamos nas palavras o nosso ideal particular, a nossa fantasia sobre o que seria aquele sentimento, e deixamos de imprimir sua verdadeira face. Então, torna-se o sofredor, criador do sofrimento, e não mais vítima de seu poder; torna-se o amante algoz do seu amor, libertando-se de suas correntes e dando a ele a cara que melhor lhe satisfaz.
Travestimos os sentimentos de tal forma que já não são mais o que nasceram para ser. Não são capazes de suportar a nova face que lhes é imposta.
E acabamos não mais sentindo, mas sim forçando-nos a sentir. Acabamos com o puro sentimento e ficamos apenas com a criatura travestida.
Há mal nisso? Sim, de fato há. Mas quem se importa?
Se não fosse dessa maneira não existiriam belas história de amor. Pois na verdade todo amor é um pouco sentido, e um pouco encenado.
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