terça-feira, 26 de outubro de 2010

Encenar, sentir (by Kauê Pereira)

Há um certo encantamento nas palavras. Há toda uma beleza, todo um sussurro ao pé do ouvido, que faz com que as palavras sejam verdadeiras atrizes, prontas para representar tudo o que lhes é passado como sentimento.

E nós, platéia balbuciante, somos dominados, levados e, na verdade, imploramos para sermos enganados. Marx estava errado, pois não a religião, mas sim a palavra, é o ópio do povo.

Escrevemos o que sentimos, adornamos sentimentos antes brutos ou encenamos com o único intuito de emocionar aqueles que nos creditam fé e que esperam de nós o sentimento que eles não possuem em suas próprias vidas?

Assim como quase tudo nessa vida a resposta é extremamente relativa. Há os que sentem e os que adornam, mas esses são simples, previsíveis e menos interessantes; os atores é que fazem da sua alma um verdadeiro palco.

Ao encenarmos através de nossas palavras satisfazemos o desejo inerente ao ser humano de acreditar que a realidade é muito maior e melhor do que parece. Pequenas paixões transformam-se em estigmas que serão carregados em nossas mentes pelo resto da vida, uma amizade se transforma em algo eterno e imaculado e até mesmo os maus sentimentos ganham uma roupagem nobre e sedutora. Projetamos nas palavras o nosso ideal particular, a nossa fantasia sobre o que seria aquele sentimento, e deixamos de imprimir sua verdadeira face. Então, torna-se o sofredor, criador do sofrimento, e não mais vítima de seu poder; torna-se o amante algoz do seu amor, libertando-se de suas correntes e dando a ele a cara que melhor lhe satisfaz.

Travestimos os sentimentos de tal forma que já não são mais o que nasceram para ser. Não são capazes de suportar a nova face que lhes é imposta.

E acabamos não mais sentindo, mas sim forçando-nos a sentir. Acabamos com o puro sentimento e ficamos apenas com a criatura travestida.

Há mal nisso? Sim, de fato há. Mas quem se importa?

Se não fosse dessa maneira não existiriam belas história de amor. Pois na verdade todo amor é um pouco sentido, e um pouco encenado.

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